Estou tão cansada do trabalho. Estou desgastada física e psicologicamente. Passei o dia em pé naquele caixa do Top's na rua 25. Nossa... como estou cansada. Acho que estou ficando velha, nem tenho mais tempo para mim. Nem lembro mais a última vez que me divertir, que sai com os amigos. Aliás, eu nem tenho amigos. Depois que casei, que me separei do Luiz e tive que criar meu filho sozinha, não tive mais tempo para nada. Sou Betânia. Betânia de Odre. Nasci no interior de Dariana, numa cidade chamada Castinho do Sul. Hoje, continuo morando aqui, na mesma casa herdada por minha mãe. Parece Karma de família, que todas as mulheres têm que ficar só. Meu pai desapareceu quando eu tinha 10 anos. Minha mãe morreu logo após o nascimento de Josué Felipe, meu filho. Felipe já deve está em casa. São dez horas, essa rua anda tão escura, ultimamente, sem movimento. No meu tempo ficavamos na rua até quando não queriamos mais. Brincavamos de tudo. Até de pedra-caixão. Hoje ninguém sabe o que é isso. Quando você chegar na esquina, do lado direito, dê 45 passos, que você estará diante da minha casa. Número 56. 56 pra sempre. Não tinha reparado como essa porta está velha, toda estrapolada. A parede velha, cheia de buracos. Precisam de uma reforma urgente, assim como a dona. - Oi Mãe, consegui um emprego. Vou trabalhar na Casa do Pão do Sr. Augusto nos 2 horários. Ele me prometeu almoço todos os dias e 200 contos por mês. - Ah sim...Espero que você me ajude no final do mês com as contas. Estou sem podê fazer compras. Gastei todo o meu salário comprando folha e caneta pra você estudar. Eu sou muito dura com ela. Não sei porquê. Talvez porque eu fui criada assim. Ando sempre de mau humor, preciso dormir. Minha vida, minha vida...que vida. ... São seis horas da manhã, ainda não consegui dormir. Não sei porquê. Estava pensando na minha vida. Hoje, meu dia será pesado. Chegarei fadigada do trabalho. - Mãe, estou saindo. Bom dia! Ele me abraçou. Ele nunca me abraçou, exceto no dia das mães. Estou sentida. Não vou chorar na frente dele. Não mesmo. - Vá logo. Antes que se atrase, Josué. Vá, que preciso me arrumar, senão quem se atrasa sou eu. Calça preta, camisa preta, sapato preto. Estou pronta. Minha bolsa. Minhas chaves...porta trancada. O Ônibus. Fui correr e me deparei com um carro do Seu Fernando. Bati a cabeça no vidro...senti os vidros entrarem na minha cabeça. Não consegui mais me mexer. Desmaiei? Mas esqueci de dar um abraço mais forte em Josué, Esqueci de perdoar Luiz, Esqueci de perdoar minha mãe, Esqueci de perdoar meu pai, Esqueci de viver por 1 minuto. Esqueci de dizer adeus. Que Josué Felipe de Odre não esqueça, é meu último desejo.
Um quase
Há 10 anos
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