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sábado, 16 de outubro de 2010

Entre o amor e os estados de paixão - Conversa com Werner Schroeter e Michel Foucault

O que é a paixão?

É um estado, é algo que te toma de assalto, que se apodera de você, que te agarra pelos ombros, que não conhece pausa, que não tem origem. Na verdade, não se sabe de onde vem. A paixão simplesmente vem. É um estado sempre móvel, mas que não vai em direção a um ponto dado. Há momentos fortes e momentos fracos, momentos em que é levada à incandescência. Ela flutua. Ela balanceia. É uma espécie de instante instável que se persegue por razões obscuras, talvez por inércia. Ela procura, ao limite, manter-se e desaparecer. A paixão se dá todas as condições para continuar e, ao mesmo tempo, para se destruir a si própria. Na paixão, não se é cega. Simplesmente, nestas situações de paixão não se é quem se é. Não tem mais sentido de ser
quem se é. Vê-se as coisas muito diferentemente.

Na paixão, há também uma qualidade de sofrimento-prazer que é muito diferente
que pode-se encontrar no desejo ou no que se chama sadismo ou masoquismo. Não são duas qualidades que se misturam entre elas, é só uma e mesma qualidade. Há, em cada uma, um sofrimento muito grande. Não se pode dizer que uma faça a outra sofrer. São três tipos de sofrimento permanente e que, ao mesmo tempo, são inteiramente queridos, pois não há nenhuma necessidade que estejam, aí, presentes.

O amor é menos ativo que a paixão.

O estado de paixão é um estado misto entre os diferentes parceiros.

O amor é um estado de graça, de afastamento. Numa discussão, há alguns dias, com Ingrid Caven, ela dizia que o amor era um sentimento egoísta, pois não olha o parceiro.

Pode-se perfeitamente amar sem que o outro ame. É uma questão de
solidão. É a razão pela qual, em algum sentido, o amor é sempre cheio de solicitações de
um para com o outro. É aí que está sua fraqueza, porque pede sempre algo ao outro,
enquanto que, no estado de paixão entre duas ou três pessoas, há algo que permite
comunicar intensamente.

O que quer dizer que a paixão contém uma grande força comunicativa,
enquanto que, no amor, há um estado isolado. Fico muito deprimido por saber que o amor
é uma criação e uma invenção internas.

O amor pode tornar-se paixão, isto é, esta espécie de estado do qual se
falou.

O amor é uma força perdida, que deve perder-se imediatamente porque não é nunca
recíproca. É sempre o sofrimento, o niilismo total, como a vida e a morte.

O problema é precisamente criar algo que aconteça entre as ideias e ao que é necessário fazer de modo que seja impossível dar um nome, e seja de maneira que a cada momento tentar dar-lhe uma coloração, uma forma e uma intensidade que não diz nunca o que é. Isso é a arte de viver. A arte de viver é matar a psicologia, criar consigo e com os outros individualidades, seres, relações, qualidades que sejam inomináveis.

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